O Gênio

Quando, em meados de 2005, o general reformado da Marinha americana George P. Hudson decidiu, aos 72 anos de idade, escrever e publicar por conta própria um livro de histórias infantis, a reação do mundo foi de pouco mais do que indiferença. Nem ele próprio, presume-se, imaginava a comoção que sua obra geraria alguns anos depois.
The Pangolin who Wore a Fedora, impresso em tiragem limitadíssima, foi, a princípio, recebido universalmente (se é que o termo é adequado ao número de pessoas que de fato o leram na ocasião) com o mais puro e manifesto escárnio. O livro revolvia em torno das simplistas aventuras do personagem-título (o qual, numa demonstração eficaz e auto-evidente do talento e refino literário do militar texano, era, efetivamente, um pangolim que usava um fedora), ambientadas num cenário que mudava e se adaptava conforme as necessidades narrativas de cada capítulo. Descrito como “um atentado à inteligência de seu público alvo”, o livro teria sido esquecido por completo (salvo um ou outro caçador de relíquias ditas so bad they’re good) se não fosse por um pretensioso texto postado online em 2017.
Estruturada como uma resenha, a postagem afirmava que as “supostas” falhas da obra infantil existiriam apenas porque ela, na verdade, não era nada infantil: o blogueiro anônimo listou trinta e sete pontos, frases e temas de The Pangolin who Wore a Fedora que, segundo ele/ela, provavam que o livro era uma bem disfarçada crítica da História recente americana. Só para citar um exemplo, o personagem principal seria uma alegoria do governo americano, enquanto seu chapéu representaria o poder, o dinheiro, a mídia, Hollywood, enfim, as armas ideológicas americanas; nos momentos, portanto, em que Pangolim induz algum amiguinho a usar o fedora para que a culpa de suas próprias travessuras recaia sobre eles (ocorrências que o escritor do blog cuidadosamente esmiúça), estariam escondidas referências a casos em que a Casa Branca fora acusada de forjar evidências para dar suporte a seus interesses. A postagem, apesar de seu nível de seriedade ambíguo, foi incessantemente reproduzida, a cada vez trazendo outras “evidências” que iam sendo “descobertas”, assim reatiçando grandemente a popularidade do livro e desencadeando uma onda de novas edições; e o fato de o autor ser um militar aposentado, potencialmente conhecedor dos segredos governamentais, ajudou a propagar a tese conspiratória entre grande parte dos novos críticos.
Uma outra teoria, entretanto, surgiu como contraponto à primeira; segundo estes, o uso ostensivo de alegorias no livro seria devido simplesmente à inabilidade de Hudson, e sua pretensão em esconder “significados ocultos” em suas páginas, amplamente desamparada. Um dos tais críticos, um psiquiatra nova-iorquino, chegou a definir a obra como “um bildungsroman vagabundo, inchado com doses cavalares de Freud e algo de Nietzsche, tentando justificar mais a si próprio do que ao absurdo personagem-título; (...) quase como um O Apanhador no Campo de Centeio para deficientes mentais”.
As discussões que se seguiram foram longas e pontuadas por exaustivas citações tiradas de escassas cinquenta páginas; algumas, dizem, foram fabricadas pelos próprios críticos, de ambos os lados, para dar suporte a seus pontos de vista. Contudo, enquanto tudo isso ocorria, George P. Hudson se mantinha curiosamente calado. Já havia recusado a oferta da editora de publicar seu outrora rejeitado segundo livro (o possivelmente genial The Tapir who Danced the Mambo), e se mantinha isolado em seu rancho em El Paso. Numa das poucas vezes em que deu alguma atenção aos jornalistas que o assediavam, declarou, muito irritado:
- Não existe conspiração! Não existe alegoria! É só a maldita história de um pangolim que usava uma porra de um fedora!
Quase desnecessário dizer, suas declarações apenas inflamaram a opinião pública quanto ao mérito artístico de seu trabalho: metade dos críticos considerou que sua falsa modéstia servia apenas para alimentar seu transtorno de personalidade narcisista, corroborando as teses quanto a sua psique baseadas em The Pangolin who Wore a Fedora; enquanto que a outra metade acreditou que o escritor havia sido morto, e que o sósia que deu a entrevista em seu lugar teria sido implantado pelo governo americano para conter as perigosas suspeitas suscitadas pelo livro.

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