Just for One Day

Uns anos atrás, quando eu ainda trabalhava na Gazprom, tive que me mudar, numa ocasião, de Moscou pra Kherson, pra supervisionar o pessoal da refinaria e do transporte do gás pra todos os destinos via Mar Negro. A companhia local, um tempo antes, tinha desviado alguns milhões de metros cúbicos, a confusão foi imensa, conflitos diplomáticos e tudo; enfim, “todo cuidado era pouco”. Na prática, a grande dificuldade da coisa era passar os dias sentada num escritório assinando um monte de papéis. Era um saco: a cidade não era muito grande, não tinha nada pra se fazer nos fins de semana e eu geralmente gastava as minhas folgas trancada no apartamento, desenhando.
Sempre que possível, nas férias, eu dava uma fugidinha pra Criméia, que é um lugar absurdamente lindo, totalmente diferente da Rússia ou do resto da Ucrânia. Foi lá que eu conheci o Dmitry, num lounge em Simferopol.
Sabe esses caras que ficam obcecados com uma coisa, põem a vida deles naquilo, pisam na mãe pra conseguir o que querem e não conseguem pensar em mais nada? Então, o Dmitry era assim. Deve ser por isso que eu gostei dele. Em pleno século XXI, a pessoa se dedicar tanto assim a uma causa, me passava... Sei lá, uma segurança. Era um pouco chato, às vezes; claro. Mas dava pra agüentar, e eu não tinha ninguém melhor, mesmo.
Ele era, ou se dizia, jornalista “independente”: tinha um blog, às vezes escrevia pra alguma publicação super underground, mal ganhava um centavo. E ainda tinha cismado que o governo tava atrás dele. Os ucranianos nunca deixaram de ser soviéticos, ele dizia sempre. Eles acham que um totalitarismozinho aqui ou ali não faz mal pra ninguém. Enfim, o grande sonho da vida do pobre do Dmitry era fazer uma revolução na Criméia, qualquer que fosse; e qualquer que fosse o resultado. Mas não dá, depois do Sürgün, depois que o lindo do Stálin mandou todos os tártaros embora, não tem mais povo crimeano, não tem mais Criméia, agora é tudo Ucrânia, é tudo União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Ele falava demais, mas de boca fechada era um gênio.
Nós nos vimos por umas semanas, e no fim ele foi morar comigo quando eu voltei pra Kherson. Eu nunca contei pra ele no que eu trabalhava (uma grande corporação, e ainda por cima russa?), e ele relutou em deixar a Criméia, mas acabou indo. Acho que ele gostava mesmo de mim.
Uma noite a gente tava bebendo vinho no meu apartamento, e eu resolvi mostrar meus desenhos pra ele; só bêbada que eu ia ter coragem de mostrar aqueles rabiscos pra alguém naquela época. Ele passou por todos muito rápido, repetindo que eram muito bons, que eu tinha que investir na minha carreira e não sei mais o quê; mas parou num deles. Era o desenho de um viking/bárbaro germânico genérico, até usando um daqueles elmos chifrudos clichês (e errados); embaixo na folha tava escrito, no alfabeto latino, Sigeweard, Eorl of Gleaweceaster; mas em cima eu tinha escrito “герой”. “Herói”. Não lembro por que escrevi aquilo; devia ser pela pose em que eu desenhei o cara, com uma espada erguida, o peito estufado, sei lá. Só lembro que ver aquela palavra deixou o Dmitry hipnotizado. Todo povo precisa de um herói, ele disse, nem sei quantas vezes, com a folha grudada na cara. Se eu não contasse a história daquele desenho, acho que ele taria nessa até hoje.
O viking foi a primeira coisa que eu desenhei depois de me mudar pra Ucrânia; foi no primeiro ano, nas férias, quando eu fui pra Yalta. Não lembro se eu contei isso. Enfim, foi por causa de uma lenda que eu descobri por acaso na internet, sobre um grupo de ingleses que teriam fugido de uma invasão da Inglaterra na Idade Média, lutado contra “os infiéis” e acabado fundando um reino justamente na Criméia, com cidades chamadas “York”, “London” e tal. Eu achei aquilo tão bonito que até me dei o trabalho de procurar o nome do líder da expedição em inglês antigo pra pôr no desenho. E desenhei um bárbaro heróico, barbudo, todo bombadinho e tudo mais. Enfim.
Eu não soube, naquele dia, se o Dmitry prestou atenção em uma palavra do que eu falei. Ele só ficava repetindo que “todo povo precisa de um herói”. Acho que terminamos o vinho, transamos e eu apaguei. Foi a última vez que eu vi o palhaço.


Sete anos depois, de volta a Moscou, consegui achar tempo e dinheiro pra me formar em Artes Gráficas, e agora consigo me sustentar como cartunista profissional. Nunca mais tinha pensado no viking, na Criméia ou no Dmitry. Até que, um belo dia, checando os meus e-mails, encontro tipo uma página inteira cheia de links exatamente sobre esses assuntos. Mandada pelo Dmitry. No topo da lista, um pedido que é quase uma ordem: liga a TV no jornal.
Não se fala de outra coisa, e tudo o que aparece são as cores azul, vermelho e branco na praça central de Simferopol. A Criméia declarou independência! O âncora, abobalhado, conta como um tal grupo internético, auto-denominado Nova Anglia, conseguiu fazer surgir (ou transbordar) nos crimeanos um sentimento nacionalista e anti-ucraniano baseado simplesmente numa lenda medieval obscura; as pessoas misteriosamente aceitaram a história, mesmo com todos os avisos das autoridades no assunto de que aquilo era só especulação, e que possivelmente tivessem sido feitas falsificações pesadas de livros e enciclopédias pra teoria virar prática.
Quando eu volto pro e-mail, vejo que todos os links são pros fóruns onde o Dmitry e os outros malucos criaram tudo: edições da Wikipédia, suborno de professores, documentos forjados. E a justificativa pro uso da história do reino inglês: era o modelo completo a ser seguido: vago e distante demais pra ser refutado, real e próximo o suficiente pra ser venerado; em outras palavras, o mito perfeito.
Desligo o PC e me recosto no sofá, de frente pra TV e as imagens da “revolução”. Tento assimilar o que aconteceu. Tento entender como, se todos os escândalos políticos, toda a censura e toda a corrupção e todas as crises, se tudo isso não comoveu o povo, como, por Deus, um mito conseguiu. Enquanto penso sobre essas coisas, enxergo uma forma estranha entre as pessoas; a televisão me dá um ajuda e eu consigo perceber que é uma estátua. Uma estátua, provavelmente encomendada com antecedência, mostrando um grupo de pessoas sem rostos, mal-acabadas, atrás do viking do meu desenho. Igualzinho.
A única diferença, claro, é a inscrição no pedestal. Não interessa saber que o nome do cara era Sigeweard, Eorl of Gleaweceaster, o que interessa é o que ele tá representando (e eu gastei o meu tempo pesquisando por nada). Não em russo, como eu escrevi, e muito menos em ucraniano; nem em tártaro crimeano, se os tártaros, mesmo tendo criado a Criméia como nação, hoje são uma minoria quase inexpressiva; mas numa língua universal, e simbolicamente unindo o real e o lendário: como na música do David Bowie, que nem entra nesta história, a inscrição no pedestal diz Heroes.

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