She weeps as they walk. Era isso que ela via, duas vezes por dia, alguns segundos de cada vez, a janela do carro por moldura. Não, não era como os outros: destoava na cor, na caligrafia, na mensagem... Que mensagem? Era só uma frase no muro. Já lhe haviam dito, aliás, que esse hobby era muito estranho.
Mônica deleitava-se com frases pichadas em muros. Para ela, aquilo não era só uma forma especial e revolucionária de literatura: sentia um prazer distinto em analisar os pedaços das vidas das pessoas que elas deixavam registrados nas paredes da cidade, e tentar adivinhar os que elas não deixavam. Era, ainda que ela não o admitisse, a epítome do voyeurismo platônico: aos quatorze anos, o mais próximo que ela se atrevia a chegar da intimidade do outro; uma experiência deliciosa e apenas vagamente sexual, uma exploração ao mesmo tempo do mundo e de si mesma.
Mas aquilo era diferente. A cidade era velha e cheia de muros, mas a menina nunca havia visto algo assim, de quaisquer lugares ou épocas. As frases que ela até ali minuciosamente classificara dividiam-se de costume em: auto-afirmação de grupos (“MDR é nóis na fita, mano”), comum entre (pré-) adolescentes dos bairros mais pobres, sem muitos adornos e de caligrafia simples; mensagens políticas (“FORA YEDA!”), dos jovens universitários de classe média, em geral com menos erros de gramática e às vezes contendo alguma forma de text art (todo e qualquer “A”, por exemplo, precisa ser transformado no “A” anarquista); declarações de amor (“Te amo, meu amor S2”), típicas de adolescentes de todas as classes, escritas de maneira mais rebuscada e inevitavelmente acompanhadas de corações e outros símbolos românticos; e xingamentos (“Bruna puta vadia vagabunda”), os mais numerosos, vindos de todos os grupos e em todas as formas. “She weeps as they walk”, com sua fonte regular (roxa, toda em minúsculas e quase em itálico), além do significado críptico, não caía em nenhuma dessas classificações.
Por quem havia sido escrita? E por quê? Por que estava em inglês? Seria uma poesia? Um código? Tentar “completar” a história, adivinhar o que havia sido omitido, era quase impossível nesse caso: Mônica se viu sem referências, sem informação alguma em que se basear para construir seu conto; possuía apenas um detalhe, um ponto isolado, sem esperança de se expandir em quaisquer direções. Sua forma especial e revolucionária de literatura mal nascera e já fora subvertida.
Por muitos dias ainda, ainda por muitas idas e vindas da escola, Mônica lutou em vão contra o frio e inexorável mistério daquelas palavras. Foi quando já mal se lembrava da questão, quando já não olhava pela moldura da janela do carro para aquele enigma no seu caminho cotidiano, que um acaso da vida lhe reacendeu a dúvida.
Indo à casa de uma amiga por uma rota diferente só por diversão, a menina acabou encontrando o que posteriormente classificaria como a “fase dois” na elaboração daquele conto: a mesma tinta roxo-alienígena, a mesma fonte estranhamente parelha. Her home, now it’s near.
Uma nova frase! Isso explicava muita coisa. Vai ver a pessoa que escreveu isso quisesse mesmo que os outros procurassem cada parte e montassem a história. Talvez ainda esteja escrevendo! Um livro vivo, espalhado por cada esquina da cidade, poderia estar se formando naquele mesmo momento! É claro, ela ainda não sabia quem era she, nem onde seria seu home; aliás, será que juntando tudo ficaria “She weeps as they walk her home, now it’s near” ou “Her home, now it’s near/She weeps as they walk”? Ah, que diferença faz? A alegria da descoberta superou e suprimiu todas as perguntas que poderiam surgir: existem infinitos caminhos entre dois pontos. E, além disso, ainda poderia haver muitos pedaços perdidos por aí, não havia sentido em (ou tempo para) pensar no significado final. O ímpeto da busca e da exploração, seu velho hobby, estava restabelecido.
E por mais muitos dias ainda, nos caminhos tortos de uma cidade velha que se revelava virgem a seus olhos, Mônica procurou incansável por novas epístolas do poeta oculto. Mais do que tudo agora queria conhecê-lo. Quem seria essa alma abençoada capaz de quebrar a lógica dos escritores urbanos e dar vida às pilhas de barro dentro das quais as pessoas normais se escondiam? De repente, tudo tinha significado: o grande segredo poderia estar no desenho disforme que fariam os passos na busca de cada peça do todo, visível somente de cima, como umas Linhas de Nazca pós-modernas; ou, talvez, na caçada em si, na relação de cada versículo com a ação necessária para obtê-lo, numa mistura peculiar de I Ching com RPG; enfim, o enigma no próprio enigma, pulsando, crescendo e mudando enquanto é resolvido, ad infinitum. Genial.
Infelizmente para a aventureira, o fervor terminaria novamente, desta vez em definitivo, antes mesmo do fim do primeiro parágrafo de seu conto. Ocorre que um dia, revisitando por acaso o lugar onde tudo começara, Mônica se deparou com uma surpresa: o dono daquele muro (ou da casa que por ele era sustentada, o que na prática dava no mesmo), insensível a tal vanguardista manifestação de arte, resolveu destruí-la contratando um pintor de paredes. Em seu lugar, o vazio apático de uma camada de tinta cor de pêssego.
Passados o choque, a raiva e a frustração, vieram as perguntas óbvias: quantas vezes isso já havia acontecido? Quantos capítulos daquele livro vivo e pulsante já haviam sido obliterados da face da Terra? De que adiantava seguir procurando peças novas, se as antigas já estavam mortas? Isso é assassinato, devia dar cadeia.
Enfim, da epopéia que Mônica pensava criar em sua mente, pouco restou. Apenas alguns apontamentos, alguns fios soltos de ações e sentimentos que ela deduzira daqueles dois primeiros versos. E mesmo disso, ela sabe, vai acabar esquecendo.
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