Karina 26


Poucas pessoas gostam de perder tempo na neblina. Deve ser um tipo de medo, não sei; alguma coisa que vai crescendo dentro delas conforme vão andando no branco, no branco dentro do branco, e o mundo parece vazio. O café vagabundo na esquina, fervendo em luzes amarelas, jurando que é chiquérrimo, parece Versalhes no inverno. Parece, no inverno, Versalhes, quero dizer.
Entrei sozinha e tentei escrever, mas as pessoas não me deixaram. O calor e as vozes abafaram os meus pensamentos, e eu parei, de lado, solta e desconfortável. Unheimlich. Sempre tem uma palavra alemã pra tudo: eu era parte da rua, aquela ilha de barulho não fazia sentido pra mim. Eu queria a névoa. Ela queria a névoa, escrevi; parecia um bom começo.
Antes que eu voltasse à ideia de sair, um cara atendeu o telefone. Não devia ser nada, claro; mas, já que eu tava ali, quis ouvir. Escorpiana com ascendente em aquário, mais curiosa impossível.
- Já tá tudo certo - ele disse, e já poderia ser um gângster. -, vocês já tão com ela? - Ela queria a névoa, mas eles a prendiam do lado de dentro; não, isso tava muito ruim. - Certo... E o espelho? - ele mudou o tom de voz, parecia irritado; me ocorreu que ele poderia ser um gângster. - É? Tá, mas eu vou precisar... Não sei, meu velho, vai ter que dar. Karina 26, ok. - isso era um código? - Faz o seguinte... É, ok, faz o seguinte: deixa aí, eu pego, levo pro Careca, depois a gente pega os quadradinhos e tal, e leva tudo junto. Karina 26, já entendi... Com “k”, tá, beleza.
Karina era uma rainha. Não, muito chato. Karina era uma puta... Muito clichê. Eu até parei de ouvir o cara; quando vi, ele já tinha até saído. Não pude deixar de pensar que ele poderia estar saindo dali pra matar alguém, abusar da própria esposa, ficar rico ilicitamente ou tentar conquistar o mundo; essas coisas acontecem, alguém ia fazer isso aquela noite. E eu não consegui saber quem era Karina, se ela era a vítima, a cúmplice, só um objeto, um código, um segredo. Ainda fiquei ali mais um tempo, escrevendo e apagando, até que resolvi sair. Karina queria a névoa.

Sexta, na aula, uma aluna chegou pra mim pra perguntar alguma coisa de uma prova, de um trabalho, sei lá. Lembro dos olhos dela. Brancos como a névoa. Não; azuis, muito azuis, como... Uma manhã sem névoa, eu acho.
- Tá, deixa eu ver aqui. Qual o teu nome, mesmo?
- Karina.
Eu devo ter ficado parada tanto tempo que ela percebeu; dentro da minha cabeça, tudo o que eu queria saber era se aquilo era só uma coincidência e eu devia seguir procurando a tal prova ou se não era e eu precisava perguntar se ela tinha sido sequestrada recentemente.
- Com “k”?
- Isso.
Em todo caso, poderia ter outras Karinas com “c”... Carinas, acho eu; mas eu tive que perguntar.
- Hã... Mas tu não tens vinte e seis, né?
- Não! - ela riu. - Credo, eu tenho dezenove. Mas eu nasci num dia 26. - juro que não perguntei, ela quis me contar não sei por quê. - 26 de abril.
Taurina. Hmm.

Naquela noite, eu vi Karina nua na minha cama; não a minha aluna, mas estranhamente parecida. Muito branca e lisa, o olhar como uma lança, mas feminina e frágil como uma flor. Mesmo assim eu não resisti. Fizemos amor como o sol sobre o mar, a chuva sobre a terra, dentes na carne, olhos nos olhos. Ela era uma alienígena, e era uma rainha e era uma puta; camaleonikarina. Não sei como eu sabia disso, mas eu sabia.
Acordei com saudade de algum lugar, de alguém, de alguma coisa que nunca vi. Sehnsucht. Claro que os alemães já sentiram isso, Kant sentiu, Nietzsche talvez, Wagner com certeza. Um escape; pode ser. No alto da montanha eu vi Karina; dirão que estava bêbada, mas eu a vi. Por aí. Tive um desejo estranho de possuir esse sentimento, prender minha Karina comigo, antes que ela fugisse.
Mas antes que eu levantasse da cama já não sentia mais nada.

Sábado, à noitinha, eu voltei à pequena Versalhes na neblina. Tudo parecia igual. Acho que eu esperava que o cara fosse aparecer de novo, só porque eu queria que ele aparecesse. Minha cabeça desajustada ficou ainda pior por voltar àquele inferno; mas eu não tava louca. Nem queria enlouquecer. Se eu dissesse “não sei por que fui pra lá”, talvez pareça que eu tava mais desesperada do que realmente tava; mas eu não sabia. Aliás, se a minha vida fosse um romance, todos os críticos diriam que ela é randômica demais pra ser verdade, e que a personagem-título não tem motivação suficiente.
Enquanto eu pensava nisso, o cara realmente apareceu. Quase como se fosse marcado, como se ele soubesse que eu ia pra lá, quase como se fosse pra ser assim. Mas ele não falou de Karina. Chegou, tomou um café, olhou a névoa, coçou a nuca e saiu. Nunca mais encontrei com ele, mesmo que tenha voltado àquele lugar várias vezes. Mesmo que tenhamos voltado àquele lugar várias vezes.
O que eu senti depois que ele saiu foi uma mistura de desapontamento, alívio e cansaço, misturados numa poça de ironia. Eu me senti sozinha, eu, eu vagando sem motivo pela cidade; e o cara, e todo mundo naquele café, e todo mundo no mundo branco e enevoado, só objetos do acaso. A fantasia de viver conforme a própria vontade é só uma pretensão machista e nazista, e todos os críticos é que são os loucos.

Livre e onipresente é só minha Karina, paranoikarina, rainha dos vinte e seis vales de Vênus. Fazemos amor na varanda como poeira de estrela sobre as colinas, como tempestades em Andrômeda; sozinhas, os olhos perfurando o céu, sem pressões ou dúvidas. Deve ter uma palavra em alemão pra isso.

“... diese Spinne und dieses Mondlicht zwinschen den Bäumen...”


Nietzsche escreveu que o maior peso que poderia recair sobre um ser humano seria a possibilidade de viver sua vida repetidamente, de novo e de novo, num retorno sem fim. Inspirava-se no poeta Heinrich Heine, que certa vez comentara que as próprias coisas que compõe o mundo, os átomos, os quarks, as supercordas, o que for, são de um número limitado, portanto seus arranjos, por infinitesimalmente precisos que sejam, estão fadados estatisticamente a acabar se repetindo.
A ideia em si, creio eu, do alto de meu limitado conhecimento das ciências exatas, é irrefutável. Dela derivam outras teorias, mais metafísicas, menos metódicas, mas igualmente dignas de consideração. Camus tomou o mito grego de Sísifo (o homem que, por ter querido escapar da morte, foi condenado a passar a eternidade empurrando uma rocha morro acima, apenas para vê-la despencar de novo e recomeçar) como uma metáfora para o absurdo da vida humana, angustiante e sem razão; algo semelhante pode ser encontrado no marxismo, segundo o qual o proletariado, alienado pela ideologia dominante, é forçado a trabalhar para viver e viver para trabalhar, repetindo mecanicamente todos os seus dias. Certas religiões também têm sua própria visão do conceito, elaborando sobre ciclos de vida, morte e reencarnação.
Posta pelo menos uma dessas considerações como verdadeira (ou mais de uma, ou todas), ainda me parece que uma suposta característica cíclica do tempo não necessariamente implicaria na repetição da História ou do pensamento humano. Uma das (talvez a única, e com certeza a mais notável) vantagens da consciência humana sobre a divina (a natureza, querendo os ateus) é que a primeira não é limitada por tempo ou espaço; a própria capacidade de repensar uma situação recorrente já gera novos significados. Assim é com o “déjà vu”, com aquele pesadelo que se repete noite após noite, com padrões e paralelismos. Já dissera Borges, em sua crítica ao Quixote de Menard, que este era muito superior ao de Cervantes, apesar de os dois serem rigorosamente iguais.
Portanto, o tempo é, podemos dizer, uma espiral: circular, repetitivo, padronizado; mas ainda assim movendo-se em uma única direção, para dentro, dobrando-se sobre si mesmo.

Crônicas do Fim do Mundo IV - A Bênção

xXxVindictiveKoalaxXx - 30 minutos atrás

A pílula poderia ter recuperado tudo, ter dado ânimo e capacidade pra que as pessoas resolvessem se levantar de novo e reconstruir o mundo; pena que existem idiotas demais no mundo, idiotas que gostam de ser idiotas, gente que sabe que tá errada e ainda assim teima. Mesmo os argumentos mais inteligentes, aquelas coisas filosóficas de preservação da identidade e o tabu contra mexer na química do cérebro, podiam ser rebatidos, mas eles já apelaram pro mais RIDÍCULO de todos. O “direito”. Claro, todos têm esse direito. Juro que eu preferia não saber que a humanidade fez essa escolha, que a imensa maioria foi fazer passeatas como se fosse uma minoria desamparada, que fizeram CAMISETAS disso; vai ver que eles tão certos, eu preferia não saber de nada, eu preferia ser um vegetal mantido vivo por uma porra duma máquina. A ignorância é mesmo uma bênção.